Yankee at Home

Não conheço Michael Kepp pessoalmente, mas ao ler suas crônicas percebi uma coisa que considero importante num cronista, Michael é um belo observador do cotidiano. Em seus textos, se revela, abre a alma, não guarda pêlos nem segredos. Fala das coisas corriqueiras da vida (e outras nem tão corriqueiras assim) e seu agudo sentido de observação é pontilhado por um sutil senso de humor, aliado à ironia. Tudo junto resulta num cronista que dá vontade de ler. Após passar pelas crônicas que me mandou para que as avaliasse, peguei-me dizendo: "só isso? Quero mais!"

Boa parte dessas crônicas - como não podia deixar de ser - falam de um Brasil visto pelo olhar de um gringo que vive entre nós há 20 anos e que se tornou um híbrido. Não consegue mais ser inteiramente americano nem totalmente brasileiro. Se disserem a Michael "aparece lá em casa", ele já tem tempo bastante de Brasil para entender que isso não é um convite para uma visita, mas lutará para resistir à sua objetividade wasp (branca, anglo-saxônica protestante) que o manda marcar logo a data e hora de aparecer na tal casa.

Michael jura que não é wasp. O termo implica em uma certa soberba e aristocracia. Como ele não é fuzileiro, nem missionário, não pertence à CIA ou à Exxon, não tem nada a ver com as maracutáias empresariais made in USA (vê lá, hein Michael, eu estou me comprometendo), nem teve antepassados que vieram no Mayflower, concedo: Michael não e wasp, é um jornalista, vira-lata como todo o bom jornalista deve ser. Mesmo se tivesse sido wasp, em alguma fase de sua vida, seria muito difícil continuar inteiramente branco, anglo saxão e protestante, após tanto tempo de janela Brasil.

Da mesma forma que observa, sempre com uma ponta de estranhamento civilizado, a nossa sociedade, Michael vê, cada vez mais, o seu país de origem com um olhar crítico, igualmente (mas diversamente) civilizado e bem diferente do que tinha quando ainda não havia deixado os Estados Unidos. Sua condição de híbrido lhe permite separar o melhor (e o pior) de nossas respectivas culturas e buscar um caminho que permita maior entendimento e convívio, uma liga, amálgama (quase) perfeito.

Para reforçar a minha argumentação recorro ao antropólogo Roberto DaMatta que leu as crônicas de Michael e anotou, textualmente: "Li o material que me enviou. Achei o estilo leve, ágil e as observações agudas e bem-humoradas. A leitura enviesada e comparativa que você faz, na qual há uma recusa em se sentir ofendido, inferiorizado ou superior pelas diferenças culturais é muito importante para um maior entendimento entre os Estados Unidos e o Brasil. Espero que você tenha sucesso com o seu livro que revela a lucidez de uma leitura do mundo pelo prisma de um 'mulato cultural': uma pessoa que vê o Brasil pelo lado americano e os Estados Unidos pelo viés brasileiro. Se os poderosos deste mundo assim fizessem, estou certo que haveria menos guerra e menos arrogância nesta tal globalização fajuta que vivemos."

Sei do que Mike fala, porque sou um pouco como ele. Mas, ao contrário dele, não sou protestante, o que significa que sou mais cínico (nós temos o padre e algumas Ave-Marias para nos absolver e abrir a porta para novos pecados); além de ter sido criado aqui mesmo, embora nascido na Alemanha e posso ousar me considerar um pouquinho mais brasileiro do que ele. (O tempo que levei para ler suas crônicas e escrever estas linhas estouraria qualquer deadline responsável. Um alemão 100% jamais faria uma coisa dessas, responderia na bucha. Peço perdão a Michael por meu desleixo).

Entre suas impressões de americano abrasileirado destaco uma pequena jóia que explica muita coisa sobre os EUA, sua política e um bocado sobre o que está ocorrendo no Iraque, embora não se refira aos acontecimentos do Oriente Médio. Trata-se da crônica Americanos x ursos. O autor constrói uma metáfora sutil descrevendo como os visitantes de um parque nacional nos EUA se previnem contra os ursos: levam guizos nos pés e um aerossol de gás de pimenta no coldre.

Mas Michael Kepp não é bom apenas quando compara Brasil e EUA. Uma das melhores crônicas deste livro, Doidona, fala de seu papagaio (alô Ibama, papagaio cizento africano, comprado em loja), na verdade uma fêmea e o ciúme que o bicho tem de sua mulher, Rosa, uma brasileira que não simpatiza com a ave, "essa galinha cinzenta". O final do texto é um primor de humor, como são engraçados os momentos em que ele teoriza sobre a impossibilidade de fazer um adolescente brasileiro lavar um mísero pratinho, ou pontifica sobre a MEMC ou Mulher de Manutenção Constante, categoria que inclui figurinhas fáceis da mídia como Adriane Galisteu, Luma de Oliveira e Ariadne (quentinhas) Coelho.

São textos que merecem leitura atenta, tanto nas crônicas em que o escritor abre os seus segredos e sua vida, compartilhando-os conosco, como nas de observação cruzada das virtudes (e defeitos) de yankees e brazucas, ou até quando discute itens mais atemporais, como a ética jornalística em "Meus efêmeros dias de mercenário", onde deixa nus o sensacionalismo e a falta de honestidade profissionais de certas práticas jornalísticas, infelizmente bem mais comuns do que seria desejável constatar. Este livro, tenho certeza, permitirá a você, caro leitor, abrir a janela da mente, derrubar preconceitos e ver melhor o que existe de convergente e divergente entre duas grandes culturas Americanas. Além disso, é bem escrito e lhe permitirá passar horas agradáveis. Tenho certeza de que ao longo das páginas deste livro, os leitores encontrarão inúmeros motivos e momentos para entregar-se a uma leitura que diverte, educa e faz refletir um pouco sobre a condição humana.
Valeu Mike!

Fritz Utzeri