Sonhando com sotaque
Confissões e desabafos de um gringo brasileiro

Michael Kepp


"Houve estrangeiros que chegaram aqui, nos examinaram e pensaram que nos entenderam, mas não se envolveram. Outros se envolveram tanto que perderam a perspectiva. Michael Kepp se abrasileirou o bastante para descobrir nossas manhas e nossos truques mas manteve a distância exata para nos surpreender com suas observações."

- Luis Fernando Verissimo.

A declaração de Verissimo resume bem o espírito de Sonhando com sotaque - Confissões e desabafos de um gringo brasileiro, de Michael Kepp. O livro é uma coletânea de crônicas sobre a vida do jornalista americano no Brasil e suas impressões sobre o país que adotou há mais de vinte anos. Dividido entre Confissões e Desabafos, as bem-humoradas crônicas de Michael não poupam elogios nem críticas ao país. Com apresentação de Luis Fernando Verissimo e prefácio assinado por Fritz Utzeri, o autor apresenta a perspectiva de um estrangeiro sobre o "jeitinho" brasileiro de ser. Um estrangeiro que, como tantos outros, ama o Brasil e confessa que depois de duas décadas se sente mais brasileiro que americano. Michael já até sonha em português, ainda que nos sonhos sempre fale com sotaque.


O que te levou a escrever Sonhando com sotaque?
Mais ou menos cinco anos após minha mudança para o Brasil, em 1983, comecei a escrever crônicas para jornais locais sobre como era minha vida no país que adotei como novo lar. Através das crônicas eu tive a oportunidade de colocar no papel, e expor publicamente, os meus pensamentos e ainda fugir um pouco do jornalismo formal. Por acaso, as crônicas foram tomando o formato de livro e decidi que seria uma boa idéia publicá-las.

O que te levou a escolher o Brasil como sua nova casa?
Aos 33 anos, depois de ter vivido nos Estados Unidos e na França, estava em Berkeley, na Califórnia - um lugar de idéias, de cultura, que para mim, um homem de esquerda, representava um ideal. Mas, mesmo lá, me sentia um estranho numa terra desconhecida. Assim, num encontro com um amigo - que por acaso tinha morado no Brasil e na ocasião me apresentou a diversos brasileiros que viviam nos EUA - desabafei sobre minha insatisfação. Foi aí que ele sugeriu: Por que você não vai para o Brasil? O conselho parecia me dizer alguma coisa. Era uma boa idéia. Afinal, os brasileiros que conheci por meio dele e o que conhecia do país - Tom Jobim, Jorge Amado, o carnaval que vi pelas cenas do filme "Orfeu do carnaval" - pareciam prometer uma pátria com mais ginga, generosidade e joie de vivre que eu poderia imaginar. Com isso, vendi tudo que tinha, comprei minha passagem de ida para o Rio de Janeiro - onde todos que fogem de Hollywood inevitavelmente terminam - e aqui estou, feliz na Cidade Maravilhosa até hoje.

O que distingue seu livro de crônicas dos outros do mesmo gênero que estão no mercado?
Ao longo dos 15 anos que passei escrevendo essas crônicas, pude me dar ao luxo de elaborá-las sem pressões, sem os deadlines e normas que são impostos aos cronistas regulares de jornais e revistas. Além disso, tendo escrito essas crônicas para uma grande variedade de publicações - e, às vezes, simplesmente para mim mesmo - fiquei livre para variar o estilo e o conteúdo das mesmas.

Fale um pouco sobre as Confissões do livro.
Nessa seção concentrei as crônicas mais confessionais do livro. A meu ver, poucos cronistas brasileiros usam esse tom confessional. Ou seja, não costumam buscar inspiração em suas vidas pessoais e detalhes da intimidade. Quantos cronistas brasileiros escreveriam, como fiz no meu livro, sobre seus pêlos, sua procura por namoradas em anúncios no jornal Balcão, seus sonhos eróticos ou suas experiências desafortunadas e até bizarras com psicanalistas e terapeutas? Na crônica Doidona falo sobre o relacionamento combativo entre minha mulher e meu papagaio, Doidona, que tenho há mais de 18 anos - ambas possuem fortes laços monogâmicos em relação a mim. Doidona, afetada por esse triângulo amoroso, não perde a oportunidade de atacar o tendão de Aquiles de Rosa quando ela não está olhando. Já Rosa sonha em usar Doidona numa receita alternativa de galinha ao molho pardo.

E os Desabafos? Fale um pouco sobre eles.
Primeiramente, gostaria de esclarecer que minhas críticas ao Brasil não são as reclamações-clichês que grande parte dos estrangeiros costumam dizer por aí. Por exemplo, não reclamo da violência no país em minhas crônicas. Até porque, venho de um país que, como mostra Michael Moore em "Tiros em Columbine", tem uma cultura muito violenta. Também não falo sobre corrupção. Nos Estados Unidos, o escândalo da Enron e vários outros mostraram que lá a corrupção também corre solta. Em vez dos clichês, prefiro o desabafo. Escrevo sobre lugares-comuns dos brasileiros. Sobre aspectos curiosos das relações, como a dificuldade de dizer "não" - usando expressões vagas como "pode ser", "vamos ver", "se der" para desviar da palavra "não" propriamente dita - até a impossibilidade de convencer os adolescentes brasileiros a lavar seus pratos, algo comum no dia-a-dia dos teenagers americanos.

Como é sua família brasileira?
Rosa, uma piauiense com quem me casei há onze anos, e seus dois filhos, Laura de 27 anos e Gabriel de 23 são a minha família. Quando adolescentes, os dois se recusavam a lavar os pratos também. Era difícil para mim lidar com essa recusa mas, aos poucos, apesar das diferenças culturais, acabei aprendendo muito sobre a sociedade brasileira como um todo e sobre a vida em geral. Algumas crônicas do livro são bastante confessionais, funcionando na verdade, como uma janela para a minha família brasileira e para o relacionamento especial que tenho com a minha mulher. Grande parte dos cronistas brasileiros contemporâneos não escrevem sobre suas famílias ou sobre suas esposas, o que acho estranho considerando que a família é o pilar principal da sociedade brasileira.

Sonhando com sotaque revela alguma crítica ao seu país de origem?
Sim, alguns dos "desabafos" do livro são críticas diretas ao governo e ao povo dos Estados Unidos. Muitas delas foram provocadas pela resposta do governo e dos cidadãos americanos aos atentados de 11 de setembro, incluindo a decisão do governo em declarar guerra contra o Iraque e o apoio público diante dessa decisão.
Uma crônica em particular, "Americanos x ursos", mostra como os americanos se armam contra os ursos durante as excursões aos parque nacionais. Ironicamente, tratam os ursos como tratavam os russos, se protegendo até os dentes, acreditando num possível confronto hostil e potencialmente fatal. Essa crônica aponta para uma característica comum e preocupante da maioria dos americanos: uma atitude neurótica para se prevenir contra qualquer eventualidade. Essa mesma atitude levou à guerra contra o Iraque, por exemplo. Outras críticas são sobre diferenças culturais entre americanos e brasileiros. Diferenças estas que me fizeram adotar o Brasil como meu novo lar, sendo este um país muito mais amigável e caloroso que minha "pátria amada". Inclusive, aviso aos brasileiros que qualquer tentativa de invadir o espaço de um americano - beijos cordiais, abraços ou tapinhas nas costas - podem colocá-lo em estado de alerta, especialmente nos dias de hoje.

É difícil para você ser polêmico ao criticar o Brasil ou mesmo os Estados Unidos?
Não. Ser polêmico é como ser vulnerável, faz parte da minha natureza e me ajudou a escrever essas crônicas. Para mim, escrever crônicas é como fazer um strip-tease. Preciso me revelar, sendo por meio de uma opinião polêmica ou descrevendo um momento íntimo da minha vida pessoal. Escrevo assim não porque sou um exibicionista mas porque expressar quem sou e como penso é um exercício de liberdade a meu ver. E, apesar de ser um risco escrever num tom tão confessional ou de desabafo, o leitor está sempre distante. A maior ameaça para mim é um e-mail agressivo, e grande parte dos que recebi até hoje se encaixam na categoria "amigável".

Você acredita que Sonhando com sotaque seja direcionado para um público específico?
Não. Foi escrito para todos, para qualquer um. Tanto para um brasileiro, quanto para um estrangeiro, que vive aqui e que gostaria de ler sobre a vida pessoal e as opiniões de um gringo brasileiro. Tudo dito de um ponto de vista original e singular. Acredito que grande parte das crônicas, especialmente as confessionais, deveriam ser lidas antes de dormir, principalmente por aqueles que querem terminar seu dia com uma boa gargalhada.