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1- Duas Décadas
de Brasil
2- Uma crônica de trocadilhos
3- Debaixo dos caracóis--Retrato do meu pêlo corporal
Duas Décadas de Brasil
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Quando os brasileiros descobrem que eu, americano, vivo em seu país
há quase duas décadas, a maior parte do tempo casado com
uma piauiense, eles costumam dizer: "Ah, então você
já é brasileiro!" . Sinto desapontá-los. Na
verdade, sou um "americano-brasileiro", uma espécie de
híbrido das duas culturas. Na verdade, por estar há tanto
tempo fora dos Estados Unidos e por não chegar a ser um insider
no Brasil, , não sou exatamente um expert em nenhuma das
duas culturas. Mas é precisamente por isso que me sinto em condições
de avaliar ambas, de um ponto de vista "forasteiro".
Essa não era minha intenção em 1983, quando eu me
mudei de Berkeley, na Califórnia, para um lugar ao qual nunca havia
ido -o Rio de Janeiro. Esse exílio voluntário não
era tampouco uma tentativa de me reinventar. Meu principal objetivo naquele
momento era me afastar de tudo o que era americano.
Aos 33 anos, eu não conseguia me adaptar à cultura individualista
que começara a despontar nos anos 70, baseada numa obsessão
pelo sucesso e pelo lema "tempo é dinheiro". No começo
dos ano 80, o sentimento de complacência e superioridade dos americanos
em relação ao resto do mundo chegava a seu ápice,
enquanto Ronald Reagan ameaçava ampliar a prepotência da
política externa do país a extremos até então
inéditos.
E por que o Brasil? As músicas de Tom Jobim, as cenas de Carnaval
de Orfeu do Carnaval e a Bahia de Jorge Amado foram o canto de
sereia que me atraiu, com promessas de um país com mais ginga,
mais generosidade e alegria de viver do que jamais poderia esperar o puritano
que vive em mim.
O estranhamento inicial não durou muito. Pouco depois de desembarcar,
eu já tinha assimilado o ritmo do país: chegava atrasado
aos compromissos, dirigia como um louco e torcia desesperadamente contra
a Argentina em qualquer jogo de futebol, fosse qual fosse o adversário.
Ansioso, passei a buscar uma "turma" que pudesse me livrar da
minha solidão e apagar os resquícios de individualismo trazidos
do meu país. Passei a freqüentar a praia, e não um
recanto sossegado do Leme, onde eu ficasse sozinho lendo meu livro. Em
vez disso, eu me transformei no gringo gregário, que tentava se
enfiar em qualquer grupinho do Posto Nove. E apesar de ter feito amigos
entre os cariocas depois, nunca fiz parte de turma alguma porque, no fundo,
nunca fui bom em me tornar parte de grupos. Na verdade, não entro
em uma organização desde que saí dos escoteiros.
Também não consegui me transformar no "homem cordial"
-esse que se esquiva de compromissos chatos com um "vamos ver",
"se der", ou "pode ser"- ou me transformar naquela
espécie híbrida -meio malandro, meio diplomata-, que poderíamos
chamar de "morde-e-assopra brasiliensis". Aquela espécie
que se comunica com frases como "eu fico devendo" ou "fica
para a próxima" para se livrar de uma dívida ou de
um compromisso.
Até hoje, o meu traço mais americano é a minha capacidade
de encarar pessoas e situações diretamente e, quando necessário,
usar a palavra "não". Quando eu faço isso, os
brasileiros dizem que eu sou "objetivo" --eufemismo do homem
cordial para "mal educado".
Existe dentro de mim uma parte puritana da qual eu não quero me
livrar, como a "ética protestante" do trabalho. Isso
ficou claro quando, pouco depois de me casar com Rosa, eu tentei convencê-la
a fazer com que seus dois filhos adolescentes passassem a me ajudar a
lavar os pratos do jantar. Minha sugestão foi imediatamente vetada
pela família. O que era de ser esperar, numa cultura na qual os
filhos de classe média são tão mimados pelos pais
e pela empregada da casa que só molham as mãos quando estão
surfando.
Mas em outros aspectos, eu me tornei muito menos americano e muito mais
brasileiro. Um exemplo são meus sentimentos anti-yankee, que aumentaram
tremendamente desde que eu cheguei ao Brasil. É que é mais
fácil sentir a prepotência americana -seja cultural, econômica,
política- estando em um país que é sufocado por ela.
Por isso, quando ocorreram os ataques terroristas em Nova York e Washington,
eu pude entender o que fez algumas pessoas dizerem "Bem feito!",
embora não concorde com essa reação.
Assim como a maioria dos brasileiros que conheço, acho que a prepotência
dos Estados Unidos não é uma justificativa válida
para o assassinato maciço de civis americanos. Por isso, e apesar
de tudo, ao ver as imagens de 11 de setembro, eu chorei. Afinal de contas,
era a minha pátria em chamas. E foi então que descobri que
ainda tenho uma forte ligação emocional com os Estados Unidos.
Esse laço não vem somente de ter crescido lá, mas
das coisas americanas que eu amo, desde o pragmatismo e a energia criativa
de seu povo até a liberdade de expressão e outras liberdades
individuais que existem lá, quem sabe até quando. Além
disso, sei que os Estados Unidos são o lugar onde as portas estarão
sempre abertas para mim. Existe alguma definição melhor
para "lar"?
Apesar disso, o Brasil é o lugar onde eu me sinto em casa, pelas
pessoas daqui que abriram seus braços para mim e me mostraram outras
virtudes, igualmente admiráveis. Essa parte brasileira de mim absorveu
algo da natureza generosa e tolerante deste povo. Basta alguém
parar numa estrada qualquer com um pneu furado e imediatamente aparecem
pessoas de todos os lados, loucas para ajudar em troca de nada.
Talvez seja porque os brasileiros, especialmente os das classes mais pobres,
têm um dom: o senso de solidariedade, que os torna capazes de doar
seu tempo, um bem escasso na cultura do "tempo é dinheiro".
Creio que estar casado com uma mulher que veio de uma família pobre
de Parnaíba -uma mulher para quem doar-se é uma coisa tão
natural como respirar- me forçou a ser um pouco mais generoso.
Se eu não tivesse conseguido, nosso casamento teria fracassado
por falta de reciprocidade. Os filhos de Rosa também me aceitaram
de braços abertos, o que é o sonho de qualquer padrasto.
Isso fez com que, para mim, ajudar a criá-los se tornasse simplesmente
parte do processo de amá-los cada vez mais.
Vivendo aqui, eu aprendi a me entregar: hoje, sou uma pessoa melhor. E
estou feliz com esse ser híbrido que me tornei. Se eu decidisse
me abrasileirar ainda mais, só conseguiria acrescentar alguns detalhes
cosméticos, como suavizar meu sotaque ou assimilar certos gestos
típicos, como segurar a pontinha da orelha para elogiar um prato
saboroso. Mas acho que isso seria mais uma "imitação"
do que uma assimilação.
Para me tornar um completo brasileiro, eu teria que assumir comportamentos
e atitudes que não são meus. As forças econômicas
e culturais que criaram o "homem cordial" não são
as que me moldaram. Qualquer tentativa de me tornar esse tipo de homem
fracassaria, além do que significaria sacrificar muito daquilo
que eu gosto em mim.
Ser brasileiro, assim como ser americano, é um estado de espírito.
E, porque absorvi tanto dos dois países, eu trago em mim os dois
estados de espírito, o tempo todo. Isso não me torna um
esquizofrênico, mas me força a caminhar sempre entre a minha
pátria e minha pátria adotiva. Nessa corda-bamba, os ventos
culturais dos dois lados me mantêm em equilíbrio.
(O Globo, 13 de Nov. 2001)
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Uma crônica de trocadilhos
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Nessa sociedade multirracial, nós gringos nos
comportamos como camaleões e passamos despercebidos. Até
abrirmos a boca. E aí, nossos sotaques, erros gramaticais e tropeços
bilíngües criam situações tão constrangedoras
que começamos a sentir saudade da pátria.
Para mim, essa saudade bateu poucos dias depois da minha chegada aqui.
Tinha acabado de entrar num banco com uma amiga brasileira, levando cédulas
misturadas para depositar. Para separá-las, decidi pedir ao caixa
alguns elásticos e perguntei à minha amiga em inglês
como dizer rubber band (elástico). Mas ela ouviu que eu estava
perguntando como dizer rob a bank em português e respondeu “roubar
um banco”. Então virei para o caixa e falei “quero
roubar um banco”. O caixa assustado fitou minhas mãos buscando
uma prova mais ameaçadora. Felizmente, minha amiga se deu conta
e intercedeu a tempo de evitar um desentendimento mais grave.
Esses tropeços bilíngües são normalmente só
embaraçosos. Quando chamo um pequeno roedor invasor de “cagamundo”
ou uso um provérbio como “vou matar dois coelhos com uma
caixa d’água só”, os brasileiros se divertem,
mas me sinto um “débito” mental.
Esse mal-estar me pegou quando, com alguns amigos no bar, vi uma moça
faceira passando e, tentando me abrasileirar, falei “aquela tem
borocochó” em vez de dizer “borogodó”.
Sofri um constrangimento ainda maior quando disse ao chefe de uma agência
de noticias que me entrevistava para um emprego no Rio de Janeiro que
eu era "bacalhau" (em vez de bacharel) em Zoologia. Minhas tentativas
de elogiar minha mulher também saírem pela culatra quando,
ao apresentá-la a alguns conhecidos, eu a chamei de "uma tesoura"
(em vez de "um tesouro").
Depois de estar aqui há 15 anos, o meu sotaque forte ainda causa
equívocos. Quando ligo, por exemplo, para marcar uma entrevista,
a secretária pergunta “quem quer falar”. Respondo “jornalista
americano”, e ela invariavelmente pergunta “João Luís
quem?”
Comodamente, coloco a culpa do meu sotaque na minha única professora
de português, uma americana que viveu em Portugal com uma família
angolana.
Mas, honestamente, só posso culpar pelos graves erros idiomáticos
o fato de, em algum ponto da minha temporada aqui, ter parado de melhorar
meu português. Me acomodei.
Vou sempre ser um gringo aqui. Só que agora, se não abrir
minha boca, passo despercebido na praia, de sunga e sandálias de
borracha, em vez de bermudões, meias escuras – e boné.
(Viaje Bem, revista da Vasp, março de
1997)
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Debaixo dos caracóis--Retrato do meu pêlo corporal
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De um ponto de vista puramente físico, a coisa menos brasileira
em mim não são meus olhos azuis nem minha pele leitosa.
É meu pêlo corporal. Enquanto a maioria dos homens brasileiros,
como os antepassados europeus ocidentais e africanos, tem algum pêlo
corporal, este gringo herdou de seus ancestrais lituânios a constituição
massuda e o corpo peludo de um urso russo. Quando faço exercícios
sem camisa em volta da Lagoa, no Rio, "Peludão" ou "Lobisomem"
são apelidos com que algumas brasileiras me definem, em uma voz
alta o bastante só para que eu consiga ouvir. Outras pessoas apenas
deixam cair o queixo e me lançam olhares furtivos que dizem "eu
não acredito".
Seu espanto é compreensível. Apesar de ter bastante pêlo
por todo o corpo, é meu tronco que atrai todos os olhares. O pêlo
do meu peito é cheio e revolto, mas não é longo como
os tufos densos e negros que cobrem completamente minhas costas e ombros,
encapelando-se sobre eles como nuvens de uma feroz tempestade.
Algumas brasileiras que conheci achavam meu pêlo corporal sexy -
ao menos foi o que me disseram. Na verdade, na praia, algumas amigas já
perguntaram se podiam tocar nele. A maioria das mulheres com quem namorei
reagiu a esta massa peluda como algumas pessoas reagem de primeira a ostras
cruas, caviar ou outros petiscos com textura pouco comum ou gosto forte
- encaram o pelame como um gosto adquirido, que demanda tempo para se
acostumar.
Logo que apresentei este atributo físico à minha mulher
piauiense, ela ficou assustada, mas cuidadosamente foi tomando intimidade
como se faz com um banho um pouco quente demais. Hoje, ela usa os pêlos
do meu peito como travesseiro para cochilos durante as novelas. Sua maior
queixa é que, apesar de meu "pelôver" ser um bom
cobertor em noites frescas de inverno, pode fazer o meu corpo parecer
o inferno na Terra no calor do verão.
Algumas poucas brasileiras com quem namorei brevemente trataram meu pêlo
corporal como uma anomalia bestial. Uma vez, o sexo selvagem me fez perder
tantos pêlos que a mulher, ainda deitada e olhando o caos que se
formou em volta, disse que parecia que um pequeno mamífero havia
morrido em seu peito. Outra mulher espanou meus pêlos de cima de
seu corpo com as costas da mão, como se fossem os restos indesejáveis
de uma experiência, exceto por isso, agradável.
Meus amigos homens, que não estabelecem grau algum de intimidade
com meu pêlo corporal, tratam-no de modo mais fraternal, como alguém
que se orgulha de estar de algum modo associado a ele. Uma vez, um amigo
apostou em um bar em que bebíamos que ninguém ali tinha
mais pêlos do que eu, e o dinheiro era alto. Meu único desafiante,
como vi quando tirou a camisa, tinha um pouquinho mais pêlo no peito
do que eu. Mas, quando eu arranquei a camisa com bravata quixotesca e
dei uma volta completa, os sons de "uau" e "vixi"
provocados pelos tufos encapelados nas costas e ombros anunciaram o vencedor.
Recentemente, um conhecido fotógrafo brasileiro ficou tão
impressionado com esses tufos chamativos em uma festa à beira da
piscina, que insistiu em fotografá-los para seu livro sobre o Rio
de Janeiro. Ele acabou me fotografando sem camisa, olhando para a Lagoa,
só que a meia distância, e não em close como eu havia
imaginado. Assim, a foto não captou o modo como os pêlos
dos meus ombros explodem como cogumelos atômicos na base do meu
pescoço - um "efeito especial" que criei eriçando
a cabelama com o secador da minha mulher antes da sessão de fotos.
Para não dar a impressão de que sou convencido, deixe-me
contemporizar um pouco. Apesar de achar os pêlos que cobrem meu
corpo de urso russo estranhamente sedutores, a falta deles no alto de
minha careca redonda a la Gorbatchov é algo com que tive de me
habituar.
Meus cabelos começaram a cair aos chumaços ao longo de um
período de dois anos na faculdade, e eu virei o alvo de piadas
estúpidas, como a que sugeria que eu penteasse o pêlo dos
ombros para cima. Para evitar que meu cabelo caísse, comecei a
aplicar um gel experimental que cheirava a ovo podre. Mas o cheiro rançoso
me tornou alvo de brincadeiras ainda mais cruéis.
Quando eu tinha 21 anos e apenas um topetinho Ciro Gomes, o cabelo estava
tão enfraquecido que bastava pentear para reduzir sua massa crítica.
Uma mulher passando os dedos por ele era o bastante para ameaçá-lo
de extinção. E, quando o topetinto se foi, nunca pensei
em implante, já que o couro cabeludo fica igual a uma plantação.
Só falta o adubo.
Desde então, vivo em paz com minha calvície. Meu pai nunca
conseguiu fazer o mesmo com o traço genético comum. Durante
a maior parte de sua vida adulta, ele deixou o cabelo crescer mais de
um lado para penteá-lo por cima da careca, chamando ainda mais
atenção para ela.
Eu faço o contrário, apesar de uma vaidade similar ditar
meus atos. Mantenho o cabelo bem curto para não acentuar minha
calvície e para evitar ficar com a cara do Bozo. Ainda assim, encaro
a falta de cabelo em cima e o excesso de pêlo em baixo do mesmo
modo, como partes integrais de mim que não tenho de esconder ou
exibir, a não ser, claro, que alguém aposte uma boa grana.
Inédita Março 2003
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