| Esta coletânea, que comecei em 1988, cinco
anos depois de chegar aqui, não é, como espero que vejam,
mais um livro de crônicas brasileiras. Tendo escrito essas peças
ao longo de 15 anos, pude me dar ao luxo de conceber e elaborar essas crônicas
sem a preocupação com o limite de tempo, como os prazos com
que lidam os cronistas de jornais e revistas. Além disso, pelo fato
de eu ter escrito essas crônicas para uma grande variedade de publicações,
ou simplesmente para mim mesmo, tive a liberdade de variar o estilo e o
conteúdo delas. Dividi o livro em dois seções: confissões e desabafos. As confissões são crônicas sobre a minha vida, escritas em tom confessional. Como poucos cronistas brasileiros atuais usam a vida pessoal como inspiração para a sua prosa, essas crônicas intimistas são diferentes em estilo e conteúdo da maioria das que se encontram no mercado. Os desabafos são crônicas, por vezes críticas, por vezes elogiosas, sobre esse povo a partir da perspectiva de um estrangeiro que ama este país. Eu ofereco essas críticas com o mesmo carinho de quem da conselhos a um amigo íntimo. Acredito que essa visão forasteira, mais também carinhosa, faça com que as crônicas sejam únicas. Dentro dessa seçao, há algumas crônicas sobre o povo de minha pátria-amada, geralmente relacionando-os àqueles de minha pátria adotiva. Pelo fato de ter vivido no Brasil nas últimas duas décadas, essas crônicas também apresentam a perspectiva de um forasteiro dos Estados Unidos que pode surpreender o leitor brasileiro. Apesar de ser um risco escrever tanto em tom confessional quanto em tom de desabafo, eu nunca me senti pouco à vontade com isso. Afinal, o leitor está distante. Minha maior ameaça é o e-mail agressivo, e a maioria dos que recebi se encaixa na categoria "amigável". Também sinto que esse tom - por vezes vulnerável, e outras polêmico - revela mais quem eu sou, o que penso e sinto. Portanto, escrever se torna um exercício libertador. Colocar essa voz no papel me dá a liberdade de olhar para mim mesmo e para o mundo à minha volta com mais clareza, e refletir sobre o modo como faço isso. Contudo, eu escrevi esta coleção de crônicas não só para o meu próprio esclarecimento, mas como registro de meus mais de vinte anos de Brasil - para o caso de alguém se interessar. Michael Kepp |